Pousada butique ocupa com elegância casarão de 1930 em Santa Teresa, no Rio de Janeiro

Pousada boutique ocupa com elegância casarão de 1930 em Santa Teresa, no Rio de Janeiro (Foto: Fran Parente)A fachada e a nova piscina, construída com borda infinita e rodeada de móveis para área externa (comprados do antigo Sofitel Copacabana) e paisagismo tropical planejado por Marie Beuscher e Laís Vertis – ao fundo, sob o ombrelone, cadeiras Lord Yo, de Philippe Starck, e mesas Tulipa, de Eero Saarinen

 

A entrada é quase imperceptível. Apenas uma placa pequena, como nome do estabelecimento e a ilustração de um abacaxi estilizado, sinaliza o portão azul de ferro que se abre para o casarão escondido em uma ladeira do bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. A escolha de um endereço discreto, mas repleto de história, não se deu à toa. Há sete anos, o casal de franceses Marie e Pierre Beuscher buscava uma construção com personalidade, terreno amplo e potencial de virar uma maison d´hote – tipo de alojamento comum na França, misto de lar e hospedaria, onde os donos se ocupam de cada pormenor da estadia.

 

Pousada boutique ocupa com elegância casarão de 1930 em Santa Teresa, no Rio de Janeiro (Foto: Fran Parente)O restaurante tem mesas montadas com a madeira do velho telhado e cadeiras DS3, de Charles Mackintosh, da Cassina

 

Para eles, o pouso carioca, mais do que um investimento, representava a oportunidade de serem anfitriões em um lugar quente, ensolarado e configurado com o conforto e o design que tanto apreciam. “Moramos muito tempo em Paris, depois nos mudamos para a região de Biarritz, e a cada tanto íamos trocando de casa, sempre reformando e vendendo. Somos apaixonados por arte e arquitetura, e queríamos experimentar a sensação de receber aqui pessoas que compartilham desse mesmo olhar”, explica Pierre, que, aos 69 anos, ainda passa os dias envolvido com a conservação da Villa Paranaguá.

Pousada boutique ocupa com elegância casarão de 1930 em Santa Teresa, no Rio de Janeiro (Foto: Fran Parente)No nicho no canto da área de convívio, os vidros azuis contam a história dos Beuscher, antigos proprietários de uma farmácia em Paris – diante deles, poltronas Mole, de Sergio Rodrigues

 

 

Para colocar a empreitada de pé, foram necessários cinco anos. Pierre cuidou do planejamento geral e da execução da marcenaria junto com o filho, Joachim, que se transferiu para o Rio em 2013, logo após a compra do imóvel. Com mestrado em direito na Sorbonne e a ideia de abrir um bistrô na capital francesa, ele preferiu a possibilidade de ajudar na concepção e na administração do negócio. “Meu pai gosta de colocar a mão na massa, é um empreendedor. Em Paris, atuava como luthier, tinha uma tradicional loja de instrumentos musicais, mas se tornou um engenheiro e designer autodidata. Já eu virei especialista em serralheria”, diz ele, que dirige a pousada ao lado de sua esposa, a carioca Laís Vertis.

“Inauguramos dois meses antes do início da pandemia e logo precisamos fechar as portas. Mas aproveitamos esse período para sentir o ritmo, cuidar das plantas e arrematar cada miudeza. Laís e minha mãe mexeram no jardim, cultivando os canteiros ao estilo do paisagismo tropical de Burle Marx. Só agora voltamos a funcionar.”

Pousada boutique ocupa com elegância casarão de 1930 em Santa Teresa, no Rio de Janeiro (Foto: Fran Parente)Na suíte master, localizada no segundo andar, o teto acompanha a inclinação do novo telhado – na parede da cabeceira, tela de Alfredo Sanchez, parte da coleção de arte dos Beuscher; a escada de mármore original teve seu guarda-corpo restaurado e ganhou a companhia do piso de ardósia preta

 

Peças de design brasileiro se misturam ao mobiliário internacional do acervo da família e a memórias como os vidros da antiga farmácia parisiense dos proprietários
 
Pousada boutique ocupa com elegância casarão de 1930 em Santa Teresa, no Rio de Janeiro (Foto: Fran Parente)A escada de mármore original teve seu guarda-corpo restaurado e ganhou a companhia do piso de ardósia preta

 

Tanto tempo de obra se justifica: o sobrado de 1932 se encontrava em péssimo estado. Anteriormente, funcionou ali uma residência de estudantes, conhecida como Mansão dos Arquitetos. “A antiga república, toda compartimentada, somava cerca de 700 m². Hoje temos 1.600 m², porque retiramos a laje e erguemos mais um piso, refazendo a estrutura do telhado”, descreve Joachim. A madeira maciça que sobrou, como pinho-de-riga e peroba-do-campo, deu origem a um acervo precioso para Pierre, que a reaproveitou em mesas de cabeceira, tampos e até em suportes torneados, que parecem esculturas a enfeitar a estante na sala de estar.

Pousada boutique ocupa com elegância casarão de 1930 em Santa Teresa, no Rio de Janeiro (Foto: Fran Parente)Salada Villa, uma das iguarias do restaurante, servida em prato de cerâmica artesanal com talheres da Degrenne e jogos americanos da Lind Dna

 

A coleção de móveis foi, em sua maioria, resultado de uma peregrinação em busca de peças de design brasileiro da década de 1960, todas restauradas com capricho, ao lado de sofás da B&B Italia, a chaise-longue assinada por Le Corbusier e Charlotte Perriand e as cadeiras do americano Warren Platner. “Somos obcecados com detalhes e compramos vários livros de mobiliário brasileiro entre os anos 1950 e 1970. Virou mania sair à cata de itens modernistas e restaurá-los com o maior cuidado”, aponta Joachim, que há dois anos adquiriu um imóvel para sua família na simpática rua Áurea, também em Santa Teresa, e está em plena reforma.

“Meus pais construíram a moradia deles aqui mesmo, no lugar da garagem. Tenho dois filhos pequenos, dois cachorros, dois gatos, e optei por me instalar por perto. Laís e eu contamos com uma equipe reduzida nos apoiando no dia a dia da pousada, mas, se necessário, vou para a cozinha preparar o jantar. Sem cerimônia.”

Pousada boutique ocupa com elegância casarão de 1930 em Santa Teresa, no Rio de Janeiro (Foto: Fran Parente)No salão-biblioteca, a estante desenhada por Pierre Beuscher emprega suportes torneados, feitos de sobras de madeira – cadeiras de Warren Platner e luminárias de Serge Mouille do acervo da família Parente)

 

 

O foco atual dos Beuscher é promover eventos pocket – sem incomodar os hóspedes, obviamente. Uma sala independente e voltada para a paisagem está em preparação para receber grupos de encontros corporativos, minicasamentos e festas. E os planos não param: em breve, pretendem reeditar o teatro caseiro que existiu ali sob o comando da atriz Tônia Carrero (1922-2018), ilustre habitante do local nos anos 1970. Há registros de que ela encenou, numa espécie de porão, a peça Navalha na Carne (1967), de Plínio Marcos, censurada pelo regime militar.

“Descobrimos isso tudo por acaso, numa homenagem recente que os netos prestaram a ela no Teatro Ipanema. Havia fotos da montagem original e um artista amigo reconheceu a casa. Muito inspirador saber desse passado e ficamos animados para retomar sua vocação artística. As possibilidades aqui são infinitas”, conclui Joachim. O futuro da Villa Paranaguá está só começando.

 

Advertisement