Morre Ruy Ohtake aos 83 anos

Ruy Ohtake, arquiteto, posa no sof (Foto: Filippo Bamberghi / Editora Globo)(Foto: Filippo Bamberghi)

 

Deixando um legado indiscutível para a arquitetura, Ruy Ohtake morreu na manhã deste sábado (27) em decorrência de um câncer de medula. O arquiteto faleceu em seu flat, em São Paulo, onde será realizado o velório para a família e amigos próximos.  

Relembre a trajetória de Ruy Ohtake.
Ruy Ohtake, arquiteto, posa  (Foto: Filippo Bamberghi / Editora Globo)(Foto: Filippo Bamberghi)

 

Peculiar, a obra do arquiteto e urbanista Ruy Ohtake, nascido em 1938, transformou a paisagem urbana no Brasil e no mundo – mas, sobretudo, na capital paulista, onde construções e intervenções com sua assinatura despontam desde a região central até bairros periféricos.

 

Primogênito da pintora, gravadora e escultora Tomie Ohtake (1913-2015), o paulistano se formou pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) em 1960. Pouco depois de graduado, já trabalhava com os elementos que viriam a marcar seu trabalho, notáveis nas inúmeras residências que priorizam o convívio social e, de modo similar, nos edifícios culturais, institucionais, comerciais e hotéis com foco na integração entre os espaços.

Somado à preocupação com a funcionalidade e a materialidade, o apuro formal é sua característica mais distinta. Embora a predileção pelas curvas sempre tenha gerado comparações com Oscar Niemeyer (1907-2012), especialistas ressaltam as distinções: se para o arquiteto carioca a curva “preserva um raciocínio gráfico que se transporta do desenho para a obra”, no entendimento de Ohtake ela “assimila a ‘liberdade plástica’ pelo viés da maleabilidade da forma”, observa Rodrigo Cristiano Queiroz, professor da FAU-USP.

Sua atuação não se limitou aos projetos arquitetônicos: Ohtake desenvolveu peças de mobiliário e objetos, lecionou nas Faculdades de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Universidade Católica de Santos e presidiu o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) na virada das décadas de 1970 e 1980.

Como resultado da prolífica carreira, recebeu dezenas de honrarias ao longo dos anos, com destaque para o Prêmio Carlos Millan, em 1971, e a Comenda Colar de Ouro, em 2006, ambos concedidos pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).

Principais projetos

Parque Ecológico do Tietê (1976) 

Ruy Ohtake (Foto: Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo/Divulgação)(Foto: Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo/Divulgação)

 

Criado por decreto estadual, o parque paulistano ganhou projeto arquitetônico e paisagístico pioneiro, que previa a despoluição do rio e a recuperação da fauna e flora locais, além de privilegiar o usufruto da população, com a formação de bosques e lagos e a instalação de equipamentos sociais para atividades de lazer.

Embaixada do Brasil em Tóquio (1982) 

Ruy ohtake (Foto: Getty Images)(Foto: Getty Images)

 

Em uma rua estreita no bairro de Aoyama, na capital japonesa, os cinco pavimentos do prédio da embaixada brasileira se destacam pela fachada curva e pelas cores vivas e contrastantes, presentes no caixilho e na estrutura que se projeta do vão.

Conjunto Aché Cultural/Instituto Tomie Ohtake (2001) 

Ruy Ohtake (Foto: Nelson Kon/Divulgação Instituto Tomie Ohtake)(Foto: Nelson Kon/Divulgação Instituto Tomie Ohtake)

 

Apesar de ocupar 65 mil metros quadrados, o enorme complexo — que inclui prédios de escritórios e o centro cultural que leva o nome da mãe do arquiteto — preza pela unidade, sendo marcado pelo uso das formas, materiais e espaços bem integrados. O projeto rendeu a Ohtake um prêmio na 9ª Bienal de Arquitetura de Buenos Aires, em 2001.

Hotel Unique (2002) 

Ruy Ohtake (Foto: Hotel Unique/Divulgação)(Foto: Hotel Unique/Divulgação)

 

Hoje perfeitamente incorporado à silhueta e ao repertório da cidade, o arrojado formato do hotel surgiu de desafios de ordem prática: criar uma construção que se destacasse em uma área onde são permitidos apenas prédios com até sete andares e atender à preferência dos hóspedes por quartos nos pavimentos superiores. 

Conjunto habitacional Heliópolis (2008) 

Ruy Ohtake (Foto:  Wikimedia Commons)(Foto: Wikimedia Commons)

 

Diante do desafio de ajudar a levar beleza, funcionalidade e dignidade aos moradores da comunidade na zona sul de São Paulo, o arquiteto concebeu os edifícios cilíndricos, apelidados de Redondinhos: com separação adequada entre si, os prédios não têm corredores e contam com boa ventilação e iluminação natural nas unidades.

A história de Ruy Ohtake

Ruy Ohtake coleciona uma série de obras emblemáticas em seus mais de 60 anos de carreira. Formas sinuosas e o uso destemido das cores marcam sua arquitetura e suas incursões no universo do design. Ruy foi o homenageado do Prêmio Casa Vogue Design 2020. Encante-se!